sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Princípio do Dia

A amiga Yvette sempre me manda coisas lindas.
Hoje chegou este poema do Ruy Knopfly. Compartilho e celebro.
***
"Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar).

Rui Knopfli

2 Comentários:

Às terça-feira, janeiro 25, 2011 , Blogger Arsenio disse...

E pra tabela com Yvette, do mesmo autor moçambicano:



MAXILAR TRISTE


Suave curva dolorosa

atenuando o bordo rijo

desse rosto derradeiro

de brancura infinita.


Impugnando-lhe a doçura,

a antinomia do tempo

acentuará os duros ângulos

num mapa de tristeza


irreparável. O sorriso

vago nela projecta um

brilho fosco de loiça antiga:


espreitando na carne

os dentes anunciam o resto."

Salve.

 
Às quinta-feira, fevereiro 10, 2011 , Anonymous Anônimo disse...

Pra que tantas palavras ? Melhor não tê-las, que venha sempre raiar o esquecimento.
Palavras vazias, pura palavras ocas. Furadas, mal avisadas, cegamente distorcidas. São as tuas, as tuas palavras iludidas.

 

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