terça-feira, 23 de novembro de 2010

Aos que sangram

Tive vontade de juntar-me aos cossacos
aos navajos
aos contrabandistas do espanto
embora tanta luz
me perseguisse.

Fui engabelado pelas hostes.
Levaram meus cabelos, sapatos,
vestígios, tempestades
levaram meus doze trabalhos
manuscritos sem nome.

Na fuga, queimei
o evangelho escuro que me atordoava.

Os cossacos passaram há pouco.
Os navajos, soube por gritos
foram mortos
em atribulados conflitos.

Vejo a poeira que resta
lembro das cinzas que comi
e junto-me aos que sangram
nesta mesma multidão.

Aurora, 14, 20 e 22/XI/2010

4 Comentários:

Às quarta-feira, novembro 24, 2010 , Blogger Canto da Boca disse...

Nessa sua complexa e hermética – um poema de uma subjetividade ímpar – narrativa, sinalizas a sua natureza hercúlea, e a das coisas. Um trabalho manuscrito, nunca é simplesmente um trabalho manuscrito, mas “os doze trabalhos de Hércules” (quiçá, os duzentos mil trabalhos de Samarone), mas do que uma proposição poética é relato de vida.
Daqui somos convidados para mergulharmos nas sagradas escrituras do evangelho, editados na Bíblia dos católicos, evangélicos, ou outras denominações religiosas, ou ainda um convite para ler Saramago...?
Embora eu perceba um anacronismo no seu poema, foi inevitável também observar um historicismo pulsante nele. Trazes muitas informações e séculos de história, além de nações, exércitos e inimigos históricos dentro da mesma veia poética – deve ser essa sua vertente humanista e pacificadora -. De um lado os U.S.A., com os índios navajos (que habitavam o sudoeste), que foram perseguidos e caçados; do outro a então U.R.S.S., com seus cossacos (que também habitavam o sudoeste da Europa), bravo e corajoso exército. Tanto um quanto o outro, hoje são apenas “grupos étnicos”, mas que não passam impunemente diante dos seus conhecimentos, é um resgate histórico, onde as metáforas não são meramente ilustrativas.
E então capitulamos diante do desfecho final dessa sua obra: o caos estabelecido! E a necessidade da reformulação, apesar da multidão, das cinzas e do sangue. Sim, sempre há o que sangra, quem sangra, em nome das causas que lhe são significativas e significantes. E deixas no ar, mais do que a fumaça da implosão, mas um convite para que todos nos façamos tripulantes das nossas intermináveis “naus dos insensatos”, e administremos os (nossos) conflitos.
Xiii, acho que exagerei no vinho...

 
Às quarta-feira, novembro 24, 2010 , Blogger Canto da Boca disse...

Em tempo: leste o livro, Cossacos, do Tolstói?

 
Às quarta-feira, novembro 24, 2010 , Blogger Arsenio disse...

Sama, esse é titular absoluto. Escalação no primeiro time.

Não tem como deixá-lo de fora da grande final.
A Multidão clama. E ela é sábia.
Salve.

 
Às quarta-feira, novembro 24, 2010 , Anonymous Anônimo disse...

Canto, não li os Cossacos, aceito como presente de Natal.
samarone
Arsênio, você sempre presente...

 

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