segunda-feira, 19 de julho de 2010

Vendas

Vendo sangue.
Vendo saudades, lembranças.
Vendo meus objetos prediletos
meus sentimentos mais incertos.

Vendo marcas, cicatrizes.
Vendo o bom dia, feliz-natal
te espero
te quiero.

Vendo o corpo
sem troco, a alma.

Vendo sem negociar
sem troco, sem palavras.
Vendo tudo o que já dei

agora, que nada mais me resta.

Aurora, 19.10.209

1 Comentários:

Às segunda-feira, julho 19, 2010 , Blogger Arsenio disse...

Samarone,

Assim a gente percebe (pelo menos eu) que a venda ou alienação (no sentido mercantil mesmo) nada mais é do que fruto do furto, arremate de uma desesperança, ainda que embrionária.

Furtaram-lhe tudo o que você colocou em leilão, e o poema, na minha visão, é um grito contra o ser humano, personagem sub-reptício do poema, autor do roubo, do furto, da má-fé e principal suspeito por ferir a esperança.

E por falar em esperança, Cassiano Ricardo tem um poema gigante, cujos versos finais bem podem duelar, no bom sentido, com os versos do seu poema:

"A RUA


Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.


A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos."

 

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