segunda-feira, 5 de julho de 2010

Profecia

A minha profecia
era morrer jovem
antes do almoço
com meus avós.

Mas fiquei de pé
sem os imperativos
da saudade.

Passar, passei
em meio às alterações
assombros, desvios.

A minha profecia
era viver pouco
e adormecer
após o cansaço.

Mas fiquei no caminho
com o antebraço voltado
para a luz.

E nada voltou
ao colo maduro
da vida.

Recife, 12/01/2010.

2 Comentários:

Às segunda-feira, julho 05, 2010 , Blogger Arsenio disse...

As vivências aqui são depuradas no cadinho da linguagem até chegarem à cifra certa. E chegam.

Inquietação, raiva, frustrações, resignações estão na raiz do poema. Pelo menos, foi o que notei. E o leitor, segundo nosso inconteste Nelson Rodrigues, é o sujeito mais livre do mundo.

Sem demagogia, com lirismo na dose certa, leio o poema, e os seus versos, Samarone, vão abrindo caminho na relva selvagem da linguagem, no repertório caótico de nossas cabeças cortadas.

Reconheço que a forma breve do poema, que você cultiva, oferece riscos. Porque o breve pode ser apenas pouco, o menos obtido por subtração.

No entanto, o que se dá aqui é o seguinte: grande poema breve, numa concentração sem qualquer perda, o famoso máximo no mínimo.

Mas eis que o poeta demonstra sua perícia, e colhe o poema com o arremate certeiro da economia verbal e objetividade, virtudes que, conforme Octavio Paz, são também elementos cruciais da poesia moderna.

Foi assim que recebi o poema. A leitura que fiz. Outras virão. Um poema desse quilate merece leituras e releituras.

Abraços

 
Às segunda-feira, julho 05, 2010 , Blogger Arsenio disse...

Completando meu racíocinio: da mesma forma que a brevidade do poema oferece riscos, poemas longos sãpo igualmente perigosos.

O risco inverte-se, e o que poderia ser poesia, ou leitura atenta e aprazível, provoca no leitor rajadas de sono, porquanto induzido à ingestão de um dormonid, o bocejo logo aparece...

Um poeta do quilate de Augusto Frederico Schimidt comumente caia nessa esparrela, e não obstante inúmeros poemas válidos e belíssimos, alguns são claramente sacais, soporíferos.

 

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