terça-feira, 13 de julho de 2010

Contrapeso

A metade desmantelada dos meus olhos
quer deixar-se ir bem devagar
talvez fugindo da morte
(que não se dá, não se empresta
mas se teme).

Sobra, portanto, o silêncio conquistado
Como um prêmio
ao que tocou no desconhecido
(Isso que chamamos doloroso
ou despertar).

E assim, na escuridão reunida,
santificada,
não se busca mais o outro lado
a face completa e madura.

Penetra-se completamente
apenas indo.

Indo tão completamente
até nada mais restar.

Samarone Lima
Aurora, 5/07/2010.

3 Comentários:

Às terça-feira, julho 13, 2010 , Blogger Arsenio disse...

Samarone, poema atacante - artilheiro, numa classificação peculiar que guardo comigo.
Mais tarde eu volto. O comentário requer mais umas releituras.

 
Às quarta-feira, julho 14, 2010 , Blogger Arsenio disse...

Samarone,

Na minha opinião, um dos alvos da escrita poética é afastar ou suprimir o valor utilitário das coisas cotidianas.

Alcançando esse êxito, transportamo-nos em movimentos de fruição e reflexão inesperados, anteriores mesmo à compreensão.

É o que se dá com esse "Contrapeso".

Antes de "entedermos" os versos, sentimos que com eles uma parte de nós - antes sedimentada - foi lançada para uma zona de surpresa e impacto.

Foi isso que me veio à cabeça, e daí a classificação de poema-artilheiro. Capaz de impactar como um gol decisivo.

 
Às quarta-feira, julho 14, 2010 , Blogger Arsenio disse...

Análise minha sobre o poema, mais específica: duelo entre a consciência da morte e dor da realidade cotidiana, com seus acontecimentos aterradores.

São fulminantes e impactantes a visão de Samarone: ("E assim, na escuridão reunida/
santificada,/
não se busca mais o outro lado/
a face completa e madura.").

Com sua mensagem enxuta e a beleza tangível, o poeta recusa-se à deserção da vida, embora afirme, com sinceridade, que o corpo - vítima do silêncio de uma consciência ativa - vai prosseguir "até nada mais restar."

Insone, Entre Códigos, processos, leis e cansanço, procuro uma abordagem para o "Contrapeso": a luta entre o provisório e o eterno, a tensão permanente entre o fim e a satisfação de se poder dialogar, através do silêncio, com a premonição do caos.

Findo os trâmites, poeta persevera sem demitir a memória afetiva:
(Penetra-se completamente/
apenas indo./
Indo tão completamente/
até nada mais restar.)


Ps - A primeira estrofe destoa um pouco do poema, mas não afeta-lhe por inteiro. É como a bola na trave. Prenúncio ou não de bons momentos. Aqui um bom prenúncio.

 

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